A inadimplência no agronegócio encerrou 2025 em 8,2%, segundo levantamento da Serasa Experian. Além disso, houve alta de um ponto percentual em relação ao período anterior. Em fevereiro de 2026, o índice de atrasos acima de 90 dias entre produtores rurais pessoa física chegou a 7,4%. Esse é, portanto, um dos maiores níveis da série histórica do Banco Central.
Geralmente, esses números entram no noticiário com foco nos bancos e nas instituições financeiras. Porém, a inadimplência no agronegócio é sentida primeiro pela distribuidora de insumos. Ou seja, antes do banco receber o aviso de inadimplência, a distribuidora já está com o recebível parado, o barter sem liquidação e a CPR fora do prazo.
Neste artigo, você vai entender, então, por que a inadimplência no agronegócio impacta diretamente a carteira de quem vende insumos a prazo. Além disso, vamos mostrar o que fazer para ter visibilidade desse risco antes de ele aparecer no caixa.
Como o risco do produtor vira problema da distribuidora
A dinâmica financeira do agronegócio cria uma cadeia de exposição. Ela começa no produtor e chega até a distribuidora. Afinal, quando a distribuidora vende insumos a prazo, com liquidação vinculada à comercialização da safra, ela assume o risco financeiro do ciclo agrícola do cliente.
Se a safra vai mal, ou se o preço da commodity cai abaixo do projetado, o resultado aparece rapidamente. Da mesma forma, se o produtor acumula dívidas de ciclos anteriores, o impacto também se manifesta. Esse resultado pode vir na forma de atraso no pagamento, de renegociação forçada ou, nos casos mais graves, de pedido de recuperação judicial. Em 2025, por exemplo, o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial. Isso representa um crescimento de 56,4% em relação a 2024, segundo a Serasa Experian, um reflexo direto do avanço da inadimplência no setor.
O risco do barter em ambiente de inadimplência no agronegócio crescente

O barter é uma das operações mais comuns entre distribuidoras e produtores rurais. Na prática, a distribuidora fornece insumos agora e recebe grãos na colheita. Contudo, quando a safra não corresponde ao esperado, seja por clima, seja por queda de preço, o produtor entrega menos grãos do que o combinado. Em outros casos, ele simplesmente negocia o pagamento para o próximo ciclo.
Nesse modelo, a distribuidora que não monitora a qualidade da carteira de barter pode acumular exposição relevante sem perceber. Isso porque, individualmente, cada contrato parece sob controle. O problema, no entanto, aparece quando a inadimplência se concentra em um grupo de clientes da mesma região ou da mesma cultura.
CPR e o risco de recebíveis que não chegam no prazo
Cédulas de Produto Rural são instrumentos amplamente usados no financiamento agrícola. Para a distribuidora que recebe CPR como garantia de pagamento, o risco principal é a liquidez do instrumento quando o produtor entra em dificuldade. Em recuperação judicial, por exemplo, o crédito da distribuidora passa a ser classificado como quirografário. Ou seja, ele fica atrás dos credores trabalhistas e dos credores com garantia real na ordem de preferência.
Visibilidade da carteira: o que a maioria das distribuidoras não tem
O problema central não é a inadimplência em si. Na verdade, é a falta de visibilidade antes de ela se materializar. Geralmente, a maioria das distribuidoras monitora vendas e estoque com mais rigor do que monitora a qualidade dos recebíveis. Assim, o DRE fecha positivo e o faturamento cresce, mas o caixa não confirma esse resultado.
Para estruturar essa visibilidade, é preciso acompanhar, por cliente e por safra, alguns indicadores-chave. Entre eles estão o prazo médio de recebimento, a concentração de carteira por produtor e por região, o histórico de renegociações e a exposição em barter e CPR. Dessa forma, com essas informações organizadas, fica mais fácil identificar sinais de deterioração antes de eles virarem perda.
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Concentração de carteira: o risco invisível ligado à inadimplência no agronegócio
Algumas distribuidoras têm 20% ou mais do faturamento concentrado em um único cliente. Outras concentram esse percentual em clientes de uma mesma microrregião. Em ambos os casos, há um risco de concentração que normalmente não aparece no fluxo de caixa projetado. Por isso, quando um produtor grande entra em dificuldade, o impacto na carteira da distribuidora pode ser imediato.
O que fazer para reduzir a exposição ao risco de crédito
A gestão do risco de carteira em distribuidoras de insumos precisa, portanto, ser tratada com o mesmo rigor que a gestão do estoque. Algumas práticas, nesse sentido, fazem diferença concreta.
Primeiro, é importante manter o histórico financeiro dos principais clientes, com acompanhamento de safra a safra. Assim, fica mais fácil identificar produtores com padrão de atraso recorrente antes de ampliar o limite de crédito. Além disso, diversificar a carteira entre regiões e culturas reduz o impacto de eventos climáticos localizados. Por fim, revisar os contratos de barter, com cláusula de reajuste e prazo de liquidação compatível com o ciclo da safra, protege a distribuidora em caso de variação de preço.
Além de tudo isso, a escrituração contábil organizada por safra também é fundamental. Afinal, é ela que permite que a empresa enxergue a exposição real da carteira, não apenas o que está no contrato, mas o que de fato vai entrar no caixa e quando.
FAQ: inadimplência no agronegócio e risco de carteira

Por que a inadimplência no agronegócio está tão alta em 2026?
A combinação de safras com margens comprimidas, custo de insumos elevado e crédito mais caro criou um ambiente de pressão financeira acumulada. Além disso, eventos climáticos frequentes agravaram ainda mais esse cenário. Muitos produtores, então, chegaram ao ciclo 2025/26 já com passivo de safras anteriores. Isso, consequentemente, acelerou o aumento dos pedidos de recuperação judicial.
Como saber se minha carteira de barter tem risco de atraso?
O monitoramento começa com a análise por cliente. Nela, é importante observar o histórico de liquidação nos últimos ciclos, a exposição relativa na carteira total e a condição financeira atual do produtor. Assim, distribuidoras que mantêm escrituração por safra conseguem fazer essa análise com mais precisão do que as que trabalham apenas com DRE anual.
O que acontece com o crédito da distribuidora quando o produtor entra em recuperação judicial?
Em recuperação judicial, os créditos quirografários ficam em posição desfavorável na ordem de preferência. Geralmente, é nessa categoria que se enquadra o recebível de insumos sem garantia real. Por isso, o processo pode se estender por anos. Ainda assim, o valor efetivamente recebido pode ser bem menor do que o registrado.
BPO Financeiro ajuda a monitorar o risco de carteira?
Sim. O BPO Financeiro estrutura os indicadores de acompanhamento da carteira. Além disso, mantém o fluxo de caixa atualizado por safra. Dessa forma, a gestão consegue identificar concentrações de risco e padrões de atraso antes que eles impactem o resultado. Trata-se, portanto, de uma ferramenta de previsibilidade, e não apenas de registro.
Devo revisar meus contratos de barter por causa da Reforma Tributária?
Sim, especialmente aqueles com liquidação a partir de 2027. Isso porque a nova lógica de incidência de IBS e CBS sobre operações de barter pode alterar o valor líquido recebido na liquidação. Afinal, contratos sem cláusula de reajuste tributário foram assinados sob uma realidade fiscal que vai mudar.
A inadimplência no agronegócio que aparece no caixa já chegou tarde
Quando a inadimplência de um cliente se materializa no caixa da distribuidora, o momento de agir já passou. Por isso, a gestão eficiente do risco de carteira precisa começar muito antes. Isso significa contar com informações estruturadas, visibilidade por safra e indicadores que mostram o sinal de deterioração antes de ele virar perda.
Na Agrocontar, trabalhamos com distribuidores de insumos e produtores rurais para estruturar a gestão financeira da operação. Fazemos isso com a profundidade que o agronegócio exige. Portanto, se você quer entender melhor o risco da sua carteira antes que ele impacte os resultados, fale com nossos especialistas.
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